Retrato de Finn

O botânico selvagem

Cerca de 26 anos

Finn

Só as flores de estufa precisam florescer no horário. O mato nas frestas da pedra cresce tão selvagem quanto quiser.

Finn já foi o aluno exemplar mais obediente do prédio, até que uma noite de chuva lhe mostrou que os arbustos não eram a única coisa arrancada pela raiz.

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De um escritório mantido exatamente a 22 graus a uma velha estufa cujos vidros quebrados ele nunca consertou.

Três capítulos o ensinaram a perguntar primeiro em que estação uma pessoa realmente está, antes que alguém fale em continuar forçando.

  1. Aos 22

    Um modelo capaz de dar preço a um pântano

    Formado em ecologia ambiental por uma universidade de ponta, entrou numa consultoria de planejamento urbano e negócios, usando elegantes modelos acadêmicos para provar como era lucrativo derrubar um velho pântano.

  2. Aos 25

    Escavadeiras na chuva

    Para que um relatório de início de obra saísse antes dos resultados trimestrais, uma faixa de arbustos com séculos de idade foi arrancada numa noite. Na manhã seguinte, o chefe mandou deixar bonito o relatório de compensação de carbono.

  3. Aos 26

    Descalço na terra da estufa

    Uma infecção pulmonar depois de quarenta horas de trabalho seguidas encerrou tudo. Ele arrancou o soro, jogou fora o crachá e partiu num caminhão frigorífico carregado de repolhos até a beira de uma cidade pequena.

Depois daquela noite de chuva, Finn nunca mais enfeitou um relatório.

Aos vinte e cinco, Finn estava sob um abrigo de obra vendo escavadeiras pesadas revirarem a lama a noite inteira, arrancando uma faixa emaranhada de arbustos que havia sobrevivido a séculos de tempestades, só para que um relatório de início de obra saísse antes dos resultados trimestrais. Na manhã seguinte, o chefe bateu no ombro dele: para de olhar para o nada, volta e deixa bonito o relatório de compensação de carbono. Ele entrou no banheiro, viu no espelho um rapaz de vinte e cinco anos com o rosto cinzento e vomitou na pia. Entendeu de uma vez que não era diferente daqueles arbustos: podado, forçado a amadurecer, espremido e descartado pela mesma máquina chamada eficiência e futuro.

Uma infecção pulmonar grave depois de quarenta horas de trabalho o levou a um corredor de pronto-socorro. Com as mensagens do chefe ainda chegando uma atrás da outra, Finn tirou o soro da mão, jogou o crachá no lixo hospitalar, retirou o chip do celular e subiu num caminhão frigorífico carregado de repolhos frescos. Dormiu meio mês numa velha estufa meio desabada no fim de uma cidade pequena. Na primeira vez em que pisou descalço na terra morna e fofa e viu uma erva daninha rachar um bloco de concreto abandonado, escondeu o rosto nas mãos e recuperou o fôlego. Nunca consertou os vidros quebrados; a videira selvagem ainda pende da cúpula de ferro.

Continue sua história com Finn.

Comece pelo que está incomodando você ou por uma tiragem.

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